Genética de Suínos – Agroceres PIC

Revisão

Como proteger tetos funcionais e potencializar a produção de leite em fêmeas suínas

Marco Antonio Zandonai – Serviços Técnicos Agroceres PIC
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Em sistemas com leitegadas cada vez maiores, a integridade mamária das fêmeas define resultados. Saiba quais manejos ajustar, por fase, para preservar tetos, elevar o potencial de lactação e diminuir o uso de mães de leite.

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Com leitegadas cada vez maiores, integridade mamária e tetos funcionais deixam de ser detalhe e viram ponto crítico para a produtividade do sistema.

Quando não há disciplina de seleção e atenção cuidadosa ao manejo ao longo da vida da fêmea, o impacto aparece na maternidade. Menor capacidade de amamentação, mais lesões de tetos, mais ajustes de leitegada, mais movimentação de leitões e mais pressão sobre a equipe.

Sem tetos íntegros e desenvolvimento adequado da glândula mamária, não há lactação em nível adequado; e sem isso, a fêmea perde vida útil. Este não é um tema apenas do parto. É um tema de seleção, rotina, ambiente, nutrição e protocolo, do nascimento à primeira lactação.

Critério-chave: número de tetos funcionais

A referência prática para tomada de decisão é o número de tetos funcionais. Teto funcional é o teto bem implantado, sem dano e com possibilidade real de pega e mamada. Tetos cegos, invertidos, lesionados ou com alteração de pele entram no plantel como “número”, mas chegam à maternidade como “falta”.

Tudo começa pela seleção. Se a meta do sistema é desmamar leitegadas maiores, o plantel precisa acompanhar essa demanda. Vale definir critério mínimo de tetos e não reter fêmeas abaixo do padrão. Como referência prática, pode-se priorizar fêmeas com mais de 14 tetos funcionais, ajustando o critério à média de nascidos e à realidade de cada granja. Esse cuidado evita um efeito acumulativo no plantel, em que a seleção pouco criteriosa hoje vira “bola de neve” de falta de tetos funcionais amanhã.

Por que pequenas falhas viram perdas

A glândula mamária se desenvolve por etapas e depende do histórico da fêmea. Por isso, lesões físicas no aparelho mamário, crescimento mal conduzido na recria, condição corporal inadequada no fim da gestação e tetos pouco utilizados na primeira lactação não passam em branco. São pontos que se somam e reduzem o potencial de lactação da fêmea justamente quando a pressão por amamentação é maior.

Em termos práticos, preservar a integridade mamária não é uma ação pontual. É um esforço cuidadoso e contínuo, do nascimento à primeira lactação, com seleção, ambiente, nutrição e rotina alinhados ao objetivo de manter tetos utilizáveis e glândula preparada para lactar.

Manejo por etapas: do nascimento à creche

Na leitoa em preparação, o objetivo é evitar dano físico. Lesões de pele na linha mamária costumam ser subestimadas porque o animal “não está produzindo”. No entanto, teto machucado cedo tem maior chance de perder qualidade, deformar ou tornar-se mais vulnerável na maternidade.

Por isso, a rotina de manejo deve incluir cuidados simples, mas que garantem bons resultados. Revisão de abrasividade do piso, correção de bordas e eventuais pontos de fricção nas instalações, ambiente seco e limpo e inspeção dirigida de lesões mamárias em amostragens de lote são os principais. Na maternidade, detalhes básicos de manejo neonatal (como assistência ao parto e cura de umbigo bem-feita) ajudam a reduzir traumas e riscos indiretos. Se a incidência é recorrente, não é acaso, é falha de instalação e manejo. Em pisos muito abrasivos, é comum adotar proteção temporária (como fitas) para reduzir atrito e evitar lesões nos tetos das leitoinhas, enquanto a causa estrutural é corrigida.

Recria: desenvolvimento mamário depende de crescimento bem conduzido

Existe uma janela pré-puberal em que o tecido mamário responde ao ritmo de crescimento (com destaque para a fase em torno de 80–100 dias, conforme realidade do sistema). Na prática, isso significa que restrições nutricionais importantes, desafios crônicos e variabilidade de consumo têm custo futuro. Aqui, a chave está na regularidade do manejo. Consumo adequado, ambiente que não prejudique o desempenho e lote com baixa variabilidade.

O objetivo não é “superalimentar”. É evitar restrição e instabilidade que reduzam crescimento e deposição de tecido, com impacto indireto no potencial mamário. Ambiência ruim, alta densidade, pouca disponibilidade de cocho/bebedouro e desafios sanitários reduzem consumo, atrasam crescimento e limitam o potencial futuro.

Condição corporal e estratégia nutricional

Na gestação, a fêmea prepara não apenas o parto, mas a lactação. O ponto crítico é evitar que a leitoa chegue ao final da gestação com condição corporal inadequada, porque isso compromete reserva, resposta metabólica e desenvolvimento mamário.

Na prática, é necessário monitorar a condição corporal das fêmeas com regularidade, definir metas por fase e ajustar alimentação. Em granjas com faseamento nutricional, o terço final pode exigir revisão de energia e aminoácidos para sustentar preparo mamário, sempre com decisão técnica alinhada à realidade do plantel.

Primeira lactação: todo teto precisa ser usado

A primeira lactação é decisiva porque o estímulo de sucção contribui para consolidar o potencial funcional de cada teto. Em termos práticos isso significa que tetos não mamados nos primeiros dias têm maior risco de involução e menor produtividade futura.

Além disso, evidências científicas indicam que é importante garantir um mínimo diário de estímulo de sucção – por exemplo, pelo menos duas horas de sucção no dia – para favorecer o desenvolvimento da glândula mamária e reduzir risco de atrofia, com impacto positivo na lactação subsequente.

Alguns manejos mais específicos, como o revezamento/rodízio de mamadas, vêm sendo reavaliados e trabalhos recentes apontam ganho pouco significativo; por isso, o foco aqui é potencializar a habilidade materna com ações de base (uso efetivo de tetos, ambiência e suporte nutricional). O que fazer na Maternidade, com disciplina:

Garantir uso efetivo dos tetos: equalizar leitegada e conduzir manejo para que os tetos sejam utilizados, sobretudo no início da lactação.

Ajustar oferta real à demanda: a regra operacional mais segura é trabalhar próximo de 1 leitão por teto funcional.

Evitar sobrecarga quando o básico não está sólido: estratégias como colocar 1 leitão a mais podem ser usadas em cenários específicos, mas exigem granja com manejo alimentar (água e consumo de ração), ambiência e rotina muito bem controlados. Quando há limitação, o resultado tende a ser aumento de disputa, maior risco de lesões e pior desempenho dos leitões.

Atacar causas-raiz de lesões e mordedura de teto: leitão que não acessa leite adequadamente, que sofre estresse térmico ou que enfrenta disputa intensa tende a aumentar comportamentos indesejados. O manejo correto é reduzir a pressão de competição e garantir oferta, não apenas “tratar o sintoma”.

Manejo e potencial de lactação

A qualidade do aparelho mamário das reprodutoras é uma construção diária e não tema “de maternidade”. Ela é resultado do cuidado e do manejo realizados ao longo do ciclo de produção da reprodutora.

Seleção por tetos funcionais, proteção física da linha mamária, acompanhamento próximo na recria, condição corporal adequada na gestação e uso efetivo dos tetos na primeira lactação são condições para lactação previsível e longevidade produtiva. É esse conjunto que reduz a pressão por mães de leite, melhora a capacidade de amamentação e sustenta a permanência da fêmea no plantel.

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