Por Juliana Ribas, Vivian Schwaab e Willian Ribeiro – Boas Práticas e Bem-estar Animal da Agroceres PIC
Contingência, monitoramento nas 48 horas seguintes e preparo da granja são decisivos para reduzir impactos e dar segurança à transição para caudas mais longas.
A prevenção da mordedura em suínos começa pela leitura dos fatores de risco, mas a capacidade de resposta diante dos primeiros sinais também é primordial. Como o comportamento anormal de mordedura resulta da interação entre ambiente, manejo, nutrição, saúde, densidade, dinâmica social e estado mental dos animais, a contingência precisa ser rápida, organizada e tecnicamente orientada.
Quando o comportamento é identificado, o primeiro passo é intensificar a inspeção da baia afetada, observar a dinâmica dos animais e identificar suínos mordidos e, quando possível, mordedores. A remoção dos animais lesionados, o tratamento das lesões e a avaliação do lote devem ocorrer de forma padronizada, reduzindo improvisos e aumentando a eficiência da intervenção.
Em um problema multifatorial, agir rapidamente não significa agir de forma simplificada. Significa combinar tratamento, contenção, observação e correção das causas prováveis. Essa abordagem permite limitar a evolução do surto, reduzir perdas e preservar o bem-estar dos animais.
Monitoramento nas primeiras 48 horas
Após a identificação do problema, o monitoramento nas 48 horas seguintes é decisivo. Se não houver novas lesões, a situação pode ser considerada controlada. Caso surjam novos casos, é necessário reavaliar a baia, remover novamente animais mordidos e mordedores, manter as medidas de contingência e investigar outros fatores de risco que possam estar atuando como gatilhos.
Essa etapa exige disciplina. A equipe deve observar se há disputa por água, ração ou materiais de enriquecimento, alterações de comportamento, sinais de desconforto térmico, excesso de vocalização, inquietação, amontoamento ou dificuldade de manutenção das áreas limpa e suja. Esses sinais ajudam a direcionar as correções necessárias.
A padronização da resposta melhora a tomada de decisão e evita que a intervenção dependa apenas da percepção individual.
Enriquecimento ambiental como medida preventiva e de contingência
O enriquecimento ambiental é uma das estratégias mais importantes para atender à necessidade exploratória dos suínos. Como a espécie é naturalmente motivada a fuçar, morder, investigar e manipular o ambiente, a ausência de materiais adequados pode favorecer o redirecionamento desse comportamento para outros animais.
Para ser efetivo, o enriquecimento precisa ser funcional. Isso significa que deve permitir investigação, manipulação, interação social e manutenção do interesse dos animais. Também deve estar disponível em quantidade suficiente, em posição adequada, limpo e distribuído de forma que não se torne motivo de disputa.
Em sistemas com piso ripado, algumas alternativas podem ser utilizadas de forma prática, como correntes ramificadas e cordas. As correntes favorecem a interação simultânea dos animais e ajudam a manter o interesse pelo estímulo. As cordas, por sua vez, oferecem maior complexidade e podem ser utilizadas especialmente em ambientes onde já existe enriquecimento primário ou onde surgem casos de mordedura.
Na contingência, a inclusão de cordas de sisal ou algodão, em quantidade adequada, contribui para redirecionar o comportamento exploratório dos animais e reduzir novas ocorrências. O material deve ser mantido limpo, funcional e substituído sempre que estiver destruído ou perder atratividade.
O uso de enriquecimento, no entanto, não deve ser visto como solução isolada. Ele faz parte de uma estratégia mais ampla, que inclui disponibilidade de recursos, ambiência adequada, densidade correta, sanidade, nutrição, manejo de mistura e inspeção diária.
A produção de suínos com caudas mais longas exige uma abordagem planejada. A adequação não deve começar pela definição do comprimento da cauda a ser cortada, mas pela avaliação das condições que influenciam a ocorrência de mordedura.
Antes de qualquer alteração, é necessário levantar os riscos potenciais da unidade, revisar o manejo, fortalecer a inspeção diária, ajustar o tratamento dos animais, avaliar disponibilidade e qualidade de água e ração, verificar densidade, controlar ambiência e garantir oferta adequada de enriquecimento ambiental.
Essa sequência é importante porque caudas mais longas tornam mais aparentes falhas que já estavam presentes no sistema. Se os fatores de risco não forem controlados, a transição pode aumentar a ocorrência de surtos e comprometer o bem-estar dos animais e a eficiência produtiva.
Por isso, a adequação deve ser sistêmica. Trabalhar com caudas mais longas exige preparo da granja, capacitação da equipe, padronização das respostas e acompanhamento contínuo dos lotes. A decisão final sobre o comprimento da cauda deve ser consequência desse processo, não seu ponto de partida.
Preparar a granja antes de alterar o comprimento da cauda
Agir cedo para reduzir impactos
A mordedura deve ser observada, interpretada e acompanhada. Sua ocorrência indica que o sistema produtivo precisa ser avaliado de forma integrada.
Responder de forma eficiente exige rapidez, método e continuidade. Quando a equipe identifica os primeiros sinais, remove animais lesionados, trata as ocorrências, reforça o enriquecimento e investiga os fatores de risco, aumenta a capacidade de controlar o problema com menor impacto produtivo.
A prevenção e a contingência, portanto, não são etapas separadas. Elas fazem parte de uma mesma estratégia técnica, ou seja, observar melhor, agir no momento certo e preparar a granja para sistemas de produção cada vez mais alinhados ao bem-estar animal.
Para informações mais detalhadas sobre o tema, acesse o site da Agroceres PIC e baixe o Guia de Comportamento Anormal de Mordeduras.